Diálogo Interativo

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15 maio, 2006

Brokeback Mountain - a homofobia nossa de cada dia

por Acyr Maia, psicólogo e psicanalista

Depois de várias décadas, Hollywood resolveu não só tirar do armário o tema da homossexualidade masculina, mas indicar a oito Oscars, o filme "O segredo de Brokeback Mountain" (Brokeback Mountain, EUA, 2005). O diretor Ang Lee, revela, sem pudores ou trucagens, a história de amor entre dois coubóis americanos, em cenas longas, de carinho e desejo, raramente vistas, mesmo em produções voltadas especificamente para o público gay.
Como pode dois homens que se vestem como homens, que apresentam um comportamento considerado normal dentro do universo masculino dos coubóis, se beijar, sentir a falta um do outro e manter um relacionamento amoroso durante 20 anos? Muitos espectadores devem se fazer essa pergunta. Nesse sentido, Brokeback Mountain desaloja estereótipos, inclusive dos chamados filmes gays, que muitas vezes veiculam um único modelo de homossexualidade.
A figura do coubói sempre povoou o imaginário social dos homens, constituindo um modelo inabalável de virilidade, isto é, de heterossexualidade. Por aqui, temos a tradição nordestina do cabra-macho. Esse modelo hegemônico de masculinidade foi construído pela medicina do século 19, às custas da feminização do homem homossexual (e da sua respectiva patologização), e teve como objetivo a descriminalização da homossexualidade. Porém, o homossexual masculino ao ser "libertado" pela terapêutica da cura, acabou se tornando seu refém. A herança desse ideário permanece na homofobia nossa de cada dia.
O filme se passa em Wyoming (EUA) no ano de 1963, antes da eclosão do movimento gay americano. Nessa época, um casal gay não podia ter uma vida amorosa pública. A alternativa era levar uma vida heterossexual e viver a homossexualidade clandestinamente, como fazem os personagens do filme. Hoje, já é possível dois homens (ou duas mulheres) viverem juntos e gozarem de alguns direitos (não todos), antes restritos aos heterossexuais. Porém, a homofobia continua. Para alguns pesquisadores, houve até um recrudescimento dela, proporcional à visibilidade gay.
Em 1998, Matthew Shepard, estudante da Universidade de Wyoming, é linchado por ser gay, revelando que qualquer semelhança com os personagens não é mera ficção. É sabido que a reeleição do presidente Bush se deu, entre outras razões, devido à sua posição contra a parceria civil homossexual. O Vaticano, além de coibir a união entre casais do mesmo sexo, vem perseguindo os padres pedófilos homossexuais, como se não existisse a pedofilia heterossexual na Igreja, corroborando assim a crença de que todo homossexual é pedófilo. Pesquisa realizada durante a 8ª Parada do Orgulho GLBT, no Rio, mostrou que quase 60% dos entrevistados já tinha sido vítima de algum tipo de agressão motivada pela orientação sexual (GAI/CESeC/CLAM, 2003). Segundo a Anistia Internacional (2004), 70 países punem a homossexualidade, chegando à pena de morte nos países fundamentalistas islâmicos.
Como foi dito, no filme os coubóis, por não poderem expor seu amor publicamente, se casam e têm filhos. Nos dias atuais, em que segmentos evangélicos alardeiam a cura da homossexualidade, criando uma nova categoria, a dos "ex-gays", o filme endossa a visão psicanalítica sobre as vicissitudes do desejo. Mostra que é possível sublimar ou mesmo recalcar o desejo diante das contingências da vida, mas que ele é indestrutível.
Como pensar que os homossexuais não são necessariamente promíscuos, narcísicos ou pervertidos, se não lhes é dado o direito de viverem em paz suas vidas em plena luz do dia? O desfecho trágico do casal de coubóis devido à homofobia atualiza a cena da vida real de qualquer homossexual cujo reconhecimento público do seu amor ainda é condenado ou ao assassinato, ou ao anonimato, ou permitido parcialmente pela lei, segundo uma hierarquia de valores. Um beijo não deveria ser explicado, nem dar explicações. Muito menos ficar reservado ao escurinho do cinema.

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